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O MAIOR ROUBO DE JOIAS DO BRASIL

14Set

Bandidos entram no setor de cofres particulares de uma agência do Itaú na Avenida Paulista e levam um tesouro em pedras preciosas, ouro e relógios avaliado em 100 milhões de reais, no mínimo.

Diamantes do tamanho de bolas de gude, esmeraldas raras, lingotes de ouro puro, colares cravejados de dezenas de rubis, coleções de relógios que custam mais do que um apartamento de luxo, maços de notas de 500 euros. Essa é uma pequena fração do inventário de perdas do maior roubo a cofres particulares já feito no Brasil. O crime ocorreu há duas semanas, no coração de São Paulo, mas o caso passou dias na penumbra. Só na semana passada seus contornos começaram a vir à luz. A cada novo detalhe revelado, a trama torna-se mais surpreendente. O centro da ação foi o subsolo de uma agência do ltaú localizada na Avenida Paulista, na esquina com a Rua Frei Caneca. Lá, o banco mantém uma caixa-forte com 2 500 cofres alugados a seus clientes vips. Para chegar até eles, é preciso passar por guardas e por duas portas: uma gradeada e outra de aço. O aparato de proteção conta com áreas vigiadas por câmeras e sensores de movimento. Trata-se, portanto, de um local de altíssima segurança. No entanto, às 23h50 de 27 de agosto, um sábado, doze homens uniformizados com jaleco cinza-claro invadiram o local sem disparar um só tiro. Arrombaram 138 cofres, pertencentes a 120 clientes. Dez horas depois, na manhã de domingo, partiram com uma fortuna avaliada, por baixo, em 100 milhões de reais. Nenhum alarme soou.

Os bandidos entraram na agência graças a um disfarce: dois deles chegaram ao edifício em um furgão. Foram para a garagem. Desceram a rampa que dá para o estacionamento e encontraram o vigia noturno. Vestidos com os jalecos, informaram que faziam parte de uma equipe de manutenção que trocaria alguns móveis da agência. O vigia não desconfiou, pois a agência passava mesmo por um período de reformas e havia recebido um aviso sobre obras que seriam feiras naquela madrugada. Com a passagem liberada, os homens tomaram elevadores até o térreo. Na área principal da agência, dominaram o único vigilante armado de plantão. Sob a mira de pistolas, ele foi obrigado a fazer contato com a central de monitoramento e a recitar uma senha de segurança que autoriza o desligamento total dos alarmes. Em seguida, os bandidos fizeram com que o vigilante abrisse as portas que dão para a Avenida Paulista. Mais dez homens entraram, enquanto outros cinco ficaram do lado de fora, para avisar o resto do bando de algum problema. Alguns se dirigiram à garagem e descarregaram o furgão. Várias caixas de papelão foram levadas para o setor de cofres. Nelas, havia inúmeras ferramentas, desde as mais simples, como arco de pua, pé de cabra e mrreta, até equipamentos modernos, como uma furadeira magnética, capaz de varar aço, uma serra sabre elétrica e um martelo eletropneumático, utilizado para demolir paredes. Com esse arsenal, foi fácil alcançar o tesouro dos cofres. O vigia da noite e seu colega do turno da manhã, também rendido ao chegar ao trabalho, às 6h45 do domingo, só puderam dar o alarme depois que a quadrilha havia sumido.

Quando a notícia chegou à direção do Itaú, um gabinete de crise foi montado. Para a imagem de um banco, o roubo milionário de dezenas de cofres tem o mesmo impacto de uma queda de avião para uma companhia aérea. Um grupo de quarenta gerentes recebeu ordens para deixar de lado suas atribuições habituais e dedicar-se a avisar pessoalmente os clientes de que seus cofres haviam sido roubados. É uma tarefa delicada. Bancos garantem a seus clientes todos os valores depositados em contas-correntes ou aplicados em fundos . Roubos pela internet e em caixas eletrônicos também são ressarcidos. Em relação a cofres, a história é outra. É um sistema ultrapassado, em processo de extinção, em que nenhum cliente é obrigado a declarar o conteúdo do que é guardado. Por contrato, o Itaú garante o ressarcimento de 15 000 reais por cofre. Quem mantém valores maiores pode adquirir uma apólice de seguro. Até 200 000 reais, é possível fazer um seguro com o próprio Itaú. Se o valor superar esse montante, deve-se buscar outra seguradora. A maioria dos clientes, no entanto, não se preocupa com isso.

Uma das vítimas que não tinham seguro é Therezinha Maluf Chamma, de 82 anos, irmã do ex-governador e atual deputado federal Paulo Maluf. Havia mais de trinta anos, ela alugava um cofre no Itaú onde guardava duas caixas: uma com suas joias e outra com as de suas duas filhas, Maria Tereza e Nelly. Tudo foi levado. "Perdi bens que ganhei do meu bisavô, avô, mãe, marido. Jamais conseguirei comprar peças comparáveis, elas nem são mais produzidas", lamenta. Entre outras preciosidades, Therezinha tinha um colar de brilhantes da joalheria francesa Van Cleef & Arpels e um anel cuja pedra de brilhante era do tamanho de uma cereja graúda. Especula-se que o prejuízo da família supere facilmente 1 milhão de reais.

As irmãs Vera Lúcia Atallah Salem, Maria Cristina Atallah Gabriel e Rose May Atallah também estão inconsoláveis. "Dias antes do roubo, fui viajar e, com medo de que minha casa fosse invadida, levei tudo para o nosso cofre. Deu no que deu", ressente-se Rose May. Nervosa com as perdas, sua irmã Vera Lúcia, que sofre do coração, teve de tomar remédios.

O dono de um conjunto de diamantes e rubis da joalheria americana Tiffany, lapidados na década de 30, que incluía gargantilha, bracelete, brincos, anel e aliança, também precisou ser medicado ao saber que estava alguns milhões de reais menos rico. Duas coleções de relógios Rolex desapareceram. Uma delas, com 110 peças históricas, estava avaliada em
2 milhões de reais. A outra contava com setenta relógios da marca mais cobiçada pelos ricos brasileiros.

Diante da dimensão do roubo, era de esperar que a polícia tivesse iniciado a investigação imediatamente. Não foi o que aconteceu, apesar de o Itaú ter acionado os policiais logo depois de ter recebido a notícia traumática. Após o registro do boletim de ocorrência e as providências de praxe (perícia fotográfica, recolhimento de impressões digitais), o caso estranhamente hibernou. A Delegacia de Repressão a Roubo a Bancos levou uma semana para começar a investigar o assalto, e só interrogou os vigias rendidos na última quinta-feira, onze dias depois da invasão do cofre. Perdeu-se, assim, a oportunidade de intensificar a investigação nas primeiras 48 horas subsequentes ao crime, cruciais na coleta de evidências. "Houve falhas operacionais. Não foi notada a importância da ocorrência", admite o delegado-geral, Marcos Carneiro. Essa é uma visão, no mínimo, otimista. Quem conhece a polícia sabe que, em casos dessa magnitude, os agentes costumam agir com rapidez. Se policiais demoram para tomar providências, é um mau sinal. Há o risco de que eles estejam interessados em chegar aos bandidos de forma "extra oficial", para chantageá-los e ficar com parte do que foi roubado. A polícia de São Paulo tem antecedentes. Alguns de seus integrantes extorquiram os megatraficantes colombianos Juan Carlos Abadía e Ramón Manuel Penagos, conhecido como EI Negro. Também tomaram uma pequena fortuna de bandidos envolvidos em roubos a banco nos últimos anos. É preciso apurar se essa vergonha se repetiu. É o que o secretário de Segurança Pública do estado, Antonio Ferreira Pinto, está fazendo com a presteza habitual.

Como os bandidos tiveram uma semana de dianteira, pode ser que muitas das joias roubadas tenham sido derretidas ou contrabandeadas para fora do país. A missão imediata é encontrar os autores do crime. Essa tarefa será possível graças ao único deslize cometido pelos ladrões: eles destruíram boa parte das câmeras de vídeo do circuito interno de gravação da agência e desligaram outras, mas alguns dos equipamentos passaram despercebidos. Com isso, foi possível obter imagens do rosto dos doze assaltantes que entraram no edifício. Boa parte deles está prestes a ser identificada – suas feições estavam em arquivos da polícia e de empresas de segurança privada porque eles já haviam participado de roubos a banco. Durante a análise das faces, uma hipótese se formou e ganhou peso: é alta a probabilidade de que o núcleo duro da quadrilha que invadiu o Itaú seja o mesmo que planejou e executou, há seis anos, o assalto ao cofre-forte do Banco Central, em Fortaleza, no qual foram roubados 164 milhões de reais, no maior crime desse tipo cometido na história do país – pelo menos, até agora. Isso teria sido possível graças a um dos muitos absurdos brasileiros: dos 125 envolvidos naquele roubo, cinco estão foragidos e 81, incluindo os que ajudaram a lavar o dinheiro, estão em liberdade. O crime do Banco Central de Fortaleza virou filme.

Só nos seis primeiros meses do ano, 239 agências bancárias foram assaltadas, com perda de 31 milhões de reais. Se, de fato, foi a mesma quadrilha que assaltou o Itaú, cabe à policia paulista fazer com que uma eventual sequência cinematográfica termine com os bandidos" na cadeia. Seria um primeiro sinal de reação contra o crime organizado e especializado em atacar bancos.

Com reportagem de Adriana Dias Lopes, André Eler, Giuliana Bergamo, João Batista Jr, Kalleo Coura e Laura Diniz

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